Nosso plano é evitar a próxima extinção
A Mata Atlântica é um dos biomas mais ricos em biodiversidade do planeta – e também um dos mais ameaçados.
Ela está desaparecendo e, com ela, inúmeras espécies de aves únicas e essenciais para o equilíbrio da natureza. Quando as aves somem, os ambientes perdem não apenas sua beleza e seus cantos, mas também serviços cruciais como a dispersão de sementes, a polinização e o controle de pragas.
Somos 70% da população brasileira vivendo no bioma Mata Atlântica, sua conservação é vital para a nossa própria qualidade de vida.
Escute as aves da Mata Atlântica, junte-se a nós nesta campanha e faça parte da mudança que pode evitar a próxima extinção.
#SomosParteDissoeIssoImporta
Buscamos fortalecer o sentimento de pertencimento e despertar o senso de responsabilidade em toda a sociedade pela conservação das aves e de seus habitats.
Buscamos encantar, sensibilizar e inspirar pessoas, mostrando como cada pessoa, cada instituição ou cada grupo pode contribuir para reduzir ameaças e evitar a próxima extinção.
Mata Atlântica. Floresta Tropical. Porção territorial da costa Atlântica que se estende do Piauí ao Rio Grande do Sul. Uma floresta pulsante que concentra grande diversidade de paisagens e formas de vida. Aqui, temos chapadas, restingas, mangues e serras onde ecoam as vozes de pixoxós, crejóas e papagaios-de-peito-roxo.
A Mata Atlântica fornece serviços que sustentam nossa vida. E isso significa que ela é fonte de renda, de água, de alimento, que purifica o ar e proporciona bem-estar e qualidade de vida. Significa que a Mata Atlântica importa! Aqui são produzidos mais de 50% dos alimentos de origem animal e dos vegetais de consumo direto do Brasil. Aqui produzimos 43% da energia nacional.
Nós somos parte disso! Mais de 72% da população brasileira vive na Mata Atlântica. São também 20.000 espécies de plantas, centenas de vertebrados, incluindo quase 900 espécies de aves.
Mesmo assim, este é um dos ambientes mais ameaçados do planeta. Para onde está indo toda essa riqueza?
PROCURA-SE!
O fogo comeu!
O gado comeu!
A motosserra comeu!
O concreto comeu!
Hoje nos restam menos de um terço da nossa casa. Fragmentos remanescentes de um todo antes bem conectado. Se perdemos a Mata Atlântica, perderemos um dos mais importantes centros de biodiversidade do MUNDO!
Mas nem tudo está perdido, pois nós temos um plano:
Plano de Ação Nacional para Conservação das Aves da Mata Atlântica.
Somos todos parte disso, e isso importa!
Daniel Munduruku – Embaixador da Campanha narra o Manifesto
Dira Paes – Apoiadora da Campanha narra o Manifesto
Márcia Kambeba – Apoiadora da Campanha apresenta poema inspirado no Manifesto
A degradação de áreas naturais para construção civil e grandes atividades, como mineração e agronegócio, reduz áreas de ocupação, conectividade, alimentação e reprodução das aves.
Animais são retirados de forma brutal e ilegal de seu ambiente natural para comercialização, criação em gaiolas, consumo e entretenimento.
Espécies de outras áreas podem competir, predar e transmitir doenças à fauna e à flora nativa, desequilibrando o ecossistema.
Largar não é libertar. Soltar animais sem avaliação profissional adequada pode destinar o animal solto à morte, espalhar doenças e ameaçar espécies nativas.
Os Planos de Ação Nacional para Conservação de Espécies Ameaçadas de Extinção (PAN) são instrumentos de gestão, construídos de forma participativa, para o ordenamento e a priorização de ações para a conservação da biodiversidade e seus ambientes naturais, com objetivos estabelecidos em um horizonte temporal definido.
O PAN Aves da Mata Atlântica tem como objetivo reduzir o risco de extinção das aves mais ameaçadas do bioma. É um plano estratégico com metas e ações concretas para proteger essas espécies e seus habitats.
Cada espécie perdida é uma perda irreversível. A extinção é para sempre. Mas ainda há tempo de agir e proteger essas aves magníficas.
A extinção é para sempre. Mas ainda há tempo de agir e proteger essas aves magníficas.
Faça parte da mudança!
Se encontrar um animal silvestre ferido ou em situação de vulnerabilidade, entre em contato:
Esses centros são fundamentais para reabilitar animais apreendidos do tráfico ou resgatados e possibilitar uma nova chance de viver livres. Doe recursos, alimento para os animais, seja voluntário ou compartilhe essas informações.
Doe, articule e envolva-se em ações de reflorestamento e recuperação de áreas degradadas em sua cidade ou região.
Utilize os materiais da Campanha, disponíveis na seção “Materiais”, em sua comunidade, escola, universidade ou grupo e envie os registros para o email cemave.sede@icmbio.gov.br ou o para Instagram @icmbio.cemave. Se postar nas redes, utilize #EscuteAsAvesDaMataAtlântica #SomosParteDissoEIssoImporta.
Use aplicativos ou sites como o iNaturalist, eBird ou WikiAves para registrar e compartilhar observações de aves, feitas individualmente ou em grupos.
Pesquise a origem dos produtos e escolha produtos cultivados sob o sistema agroflorestal ou com certificação que garanta a preservação da mata, use papéis e madeira que vêm de fontes legais e sustentáveis, não do desmatamento.
Para evitar que perturbem ou capturem aves silvestres, mantenha gatos dentro de casa (ou em espaços telados), use coleira em cães durante passeios em áreas naturais e não os leve para unidades de conservação. Mantenha os animais vacinados e castrados.
Ao ver crimes ambientais (caça, tráfico, desmatamento e queimadas ilegais), denuncie aos órgãos competentes.
Anote os detalhes do ocorrido antes de fazer a ligação. Quanto mais informações, melhor!
que trabalham na linha de frente pela conservação da Mata Atlântica. Empresas podem adotar uma espécie ameaçada ou financiar projetos de conservação.
A intenção é boa, mas pode ser fatal. Um animal solto sem avaliação por profissionais qualificados e em locais indevidos pode morrer ou causar a morte de outros. Todo animal silvestre deve ser entregue aos CETAS ou CETRAS para destinação à soltura adequada.
Observe as aves à distância. Não se aproxime de ninhos e evite fazer barulhos altos em áreas naturais. Confira o Código de ética de observação de aves.
A compra é o que alimenta todo o ciclo do tráfico. Prefira adotar apenas animais domésticos. Além disso, eduque seu círculo e explique para familiares e amigos que animal silvestre não é pet. Muitas pessoas compram por desconhecer o sofrimento e os impactos por trás do comércio.
Vote em representantes que colaboram com a conservação e pressione o poder público pela criação e aplicação de políticas públicas ambientais.
Plante árvores e espécies nativas da Mata Atlântica que forneçam alimento (frutos, néctar) e abrigo para as aves. Cobre dos governantes a criação e a implementação de Unidades de Conservação, como Parques Municipais.
Juntos, podemos construir um futuro onde as aves da Mata Atlântica continuem a encher nossas florestas de vida e beleza.
#SomosParteDissoeIssoImporta
Como usar: Use os materiais a seguir para organizar ações vinculadas à Campanha. Todos os materiais estão disponíveis gratuitamente para uso não comercial. Ao utilizá-los, dê os devidos créditos ao PAN Aves da Mata Atlântica e ao ICMBio. Compartilhe nas redes sociais usando #SomosParteDissoeIssoImporta e #EscuteAsAvesDaMataAtlântica
Site com o material expositivo que apresenta algumas aves sob atenção do PAN.
SITE
Site com o material expositivo que apresenta a Campanha.
SITE
Em breve
Conjunto de orientações e materiais para apoiar governos, organizações e pessoas a comunicar e realizar ações da Campanha de forma coordenada.
Panfleto para impressão em A4 sobre a Campanha para distribuir em passarinhadas e outras atividades.
14 MB
Texto que apresenta os princípios e propósitos da Campanha para apresentação em saraus e outras atividades culturais.
4 MB
Materiais expositivos para informar e sensibilizar em eventos e espaços públicos, para impressão em formato 160x80cm.
739 MB
Em breve
Publicação digital com conteúdos sobre aves, conservação e a Campanha para uso em escolas e outros espaços pedagógicos.
Materiais editáveis no Canva que facilitam a divulgação dos eventos de observação de aves.
45 MB
Orientações para planejar, conduzir e registrar passarinhadas vinculadas à Campanha.
3 MB
Interface com mapa para compartilhar as passarinhadas planejadas e realizadas de forma vinculada à Campanha.
SITE
Orientações para a observação responsável de aves, com respeito à natureza.
29 MB
11 MB
Em breve
Ilustrações de aves sob atenção do PAN Aves da Mata Atlântica, feitas pela artista Iris W. Goldbach, para impressão em papel adesivo.
Conjunto de ilustrações das aves sob atenção do PAN Aves da Mata Atlântica, feitas pela artista Iris W. Goldbach.
ZIP
123 MB
Template para inclusão de informações e imagens das aves, para impressão em formato 165×80 cm e exposição em espaços públicos.
ZIP
9 MB
Documentos oficiais do PAN com diretrizes, estratégias e informações sobre a conservação das aves da Mata Atlântica.
SITE
26 MB
Documentos e publicações anteriores do Plano de Ação Nacional.
Guia completo sobre as aves ameaçadas da Mata Atlântica.
PDF, EPUB
Calendário ilustrado com fotos das aves da Mata Atlântica.
Ilustrações científicas com informações sobre cada espécie ameaçada.
PDF, PNG
Como usar: Todos os materiais estão disponíveis gratuitamente para uso não comercial. Ao utilizá-los, dê os devidos créditos ao PAN Aves da Mata Atlântica e ao ICMBio. Compartilhe nas redes sociais usando a hashtag #SomosParteDissoeIssoImporta.
O impacto da nossa campanha até agora
13 dos 17 estados já foram impactados pela campanha
Mais de 82% de interação acima da média
2.500+ cartazes impressos e distribuídos
“A campanha está transformando a forma como as pessoas enxergam as aves da Mata Atlântica. Cada cartaz colado, cada material compartilhado, representa uma semente de conscientização plantada.”
— Equipe PAN Aves da Mata Atlântica
Dados atualizados em fevereiro de 2026
Em maio de 2026, durante o evento “Passarinhada Atlântica”, a Campanha Escute as aves da Mata Atlântica foi apresentada, junto a oficina, roda de conversa, apresentação teatral e exposição de fotos.
A Campanha “Escute as Aves da Mata Atlântica” é uma iniciativa do
Antônio Eduardo Araujo – CEMAVE / ICMBio
Luiza Figueira – OAMa / LEPai – UERJ
Ana Leticia Istschuk – SPVS
Ana Paula Allou – Parque das Aves
Andreza Freitas – UFRJ / LabEcoAves – UERJ / OAMa
Antônio Eduardo Araujo – CEMAVE / ICMBio
Beatriz Lemes – Estufa
Bruno Lima – Instituto Pró-Silvestre
Elisa Brod Bacci – Instituto Fauna Brasil
Gabriella Pereira – Parque das Aves
Inacira Bomfim – AZAB
Iris W. Goldbach – UFRJ / LabEcoAves – UERJ
Isabela Izidoro – NGI ICMBio Peruaçu
Júlia Cândido – Instituto Fauna Brasil
Karlla Barbosa – UNESP Rio Claro
Luisa Ritter – Estufa
Luísa Rodrigues – Estufa
Luiza Figueira – OAMa / LEPai – UERJ
Luiza Rose de Araújo – Parque das Aves
Marcos Bornschein – UNESP
Maria Alice S. Alves – UERJ
Maria Isabel Carvalho – Waita
Maria Luiza Rosa – Instituto Fauna Brasil
Marina Fagundes – SAVE Brasil
Nathália Diniz – Dinizbio Divulgação Científica
Otávio Rocha – OAMa
Patricia Ferreira – UNESP Rio Claro / OAMa
Thais Amaral – Animalia Park
Beatriz Lemes – Estufa
Beatriz Lemes – Estufa
Gabriel Marchi – Olhar Nativo
Júlia Siqueira – Estufa
Kayra França – Instituto Incluir
Luisa Ritter – Estufa
Maria Elisa Toledo – Waita
Maria Isabel Carvalho – Waita
Mariana Bertrand – Estúdio Fauna / Waita
Marina Fagundes – SAVE Brasil
Nathália Diniz – Dinizbio Divulgação Científica
Thayná Lougue – Instituto Incluir
Vanessa Sanches – Instituto Incluir
Iris W. Goldbach – UFRJ / LabEcoAves – UERJ
Lolita Beretta
Luísa Rodrigues – Estufa
Carina Alves – Instituto Incluir / LabEcoAves – UERJ / Observatório das Emoções
Clécio Souza – Instituto Acessibiliza
Luciana Medeiros – Instituto Incluir
Rayssa Nunes – Instituto Incluir
Carina Alves – Instituto Incluir / LabEcoAves – UERJ / Observatório das Emoções
Luciana Barcellos – Instituto Incluir
Layla Rebecca – Terra Comunicação
Marina Fagundes – SAVE Brasil
Amanda Faro – A23 Digital
Ana Leticia Istschuk – SPVS
Isabela Izidoro – NGI ICMBio Peruaçu
Marcus Farah – Animalia Park
Thais Amaral – Animalia Park
Affonso Henrique Souza – OAMa
David Adolph Gessner – CEMAVE / ICMBio
Enitusa da Costa Nunes
Evaldo Costa Nunes
Gilmara Pereira – NGI ICMBio Peruaçu
Luiza Figueira – OAMa / LEPai – UERJ
Tamires Manoela Nunes Pereira
Thais Nunes da Costa Pereira
Valdinéa Gomes Xavier – COTAB / ICMBio
Affonso Henrique Souza – OAMa
Arthur Fontes – Animalia Park
Alecsandra Tassoni – SAVE Brasil
Andreia Takitani – INEA
Cristine Prates
Ciro Albano – Brazil Birds Experts
Hermann Cavalcante Vherner – AZAB
João Marcos Rosa – NITRO Histórias Visuais
Leonardo Merçon – Últimos Refúgios
Marcelo Rheingantz – UFRJ
Márcia Kambeba
Verônica Battezini – OAMa
Dira Paes
Daniel Munduruku
A realização da campanha “Escute as Aves da Mata Atlântica” é fruto do apoio institucional do ICMBio e do Projeto GEF Territórios.
Com o apoio de diversas instituições de pesquisa, universidades, órgãos governamentais e organizações da sociedade civil nos 17 estados de ocorrência da Mata Atlântica.
Quer ser um parceiro?
RS, SC, PR, SP, RJ, ES, MG, BA, SE, AL, PE, PB, RN, CE, PI, RN, MS
Abrangendo toda a área de ocorrência da Mata Atlântica
#SomosParteDissoeIssoImporta
A fauna silvestre enfrenta múltiplas ameaças, como a perda e a fragmentação de habitat, a caça ilegal, o tráfico de animais e outras pressões decorrentes das atividades humanas. Nesse contexto, é cada vez mais comum que animais silvestres sejam encontrados fora de seus ambientes naturais, seja em apreensões realizadas por órgãos de fiscalização, em entregas espontâneas de animais que viviam sob cuidados humanos ou em resgates (IPBES, 2023; WWF, 2022).
Embora a soltura de animais na natureza seja frequentemente vista como uma ação positiva e motivada por boas intenções, quando realizada sem critérios técnicos adequados, pode acarretar impactos significativos. Solturas inadequadas podem comprometer populações naturais, introduzir doenças, provocar desequilíbrios ecológicos e até resultar na morte dos próprios indivíduos liberados, configurando-se como um problema ambiental, sanitário e de conservação (IUCN, 2013; ICMBio, 2024).
Diante desse cenário, torna-se fundamental compreender quando e como a soltura pode ser realizada de forma segura e responsável, garantindo benefícios tanto para os indivíduos quanto para os ecossistemas.
A soltura consiste em uma ação humana de manejo destinada a devolver um animal silvestre ao ambiente natural. Essa ação pode assumir diferentes formas, incluindo reintroduções, reforços populacionais e translocações, sendo cada uma delas aplicada conforme objetivos específicos de conservação (IUCN, 2013).
De forma geral, a reintrodução corresponde à liberação planejada de indivíduos em uma área de ocorrência histórica da espécie, de onde foi extinta localmente, com o objetivo de restabelecer populações viáveis. Já os reforços populacionais consistem na introdução de indivíduos em áreas onde a espécie já ocorre, com o objetivo de aumentar o tamanho populacional ou a variabilidade genética. As translocações, por sua vez, envolvem a transferência planejada de indivíduos entre diferentes locais, dentro ou fora de sua área de distribuição natural, podendo ser utilizadas para fins de manejo ou de conservação.
No Brasil, a legislação ambiental estabelece que animais silvestres apreendidos devem, sempre que possível, ser devolvidos ao seu habitat natural, desde que apresentem condições adequadas para sobrevivência e não representem riscos à fauna, aos ecossistemas ou à saúde pública (Brasil, 1998; IBAMA, 2021).
No entanto, a soltura só deve ser realizada quando critérios técnicos, sanitários, genéticos e ecológicos forem atendidos e por pessoas habilitadas. A simples liberação de um animal na natureza não garante seu bem-estar nem, necessariamente, contribui para a conservação da biodiversidade.
Na prática, muitas solturas ainda ocorrem sem planejamento adequado, seja por falta de informação, por limitações estruturais ou por ações individuais motivadas pela intenção de “devolver o animal à natureza”.
Esse tipo de prática pode acarretar uma série de consequências negativas, afetando tanto o indivíduo liberado quanto as populações locais e os ecossistemas. Além disso, a soltura inadequada pode atuar como vetor de outros processos de degradação ambiental, como a introdução de espécies exóticas, a disseminação de patógenos e a alteração da estrutura genética de populações naturais (Pyšek et al., 2020; Simberloff et al., 2013).
A introdução de indivíduos fora de sua área de ocorrência natural pode gerar competição com espécies nativas, aumento da predação e alterações nas interações ecológicas. Em alguns casos, pode levar à formação de populações exóticas, contribuindo para desequilíbrios ecológicos e para a perda de biodiversidade (Simberloff et al., 2013; Pyšek et al., 2020).
A soltura de indivíduos provenientes de diferentes populações pode resultar em mistura genética e hibridização, comprometendo a identidade genética local e reduzindo a adaptação das populações ao ambiente. Esses processos podem afetar a viabilidade das populações no longo prazo (Rheindt et al., 2011; ICMBio, 2024).
Animais mantidos sob cuidados humanos podem carregar patógenos que não estão presentes nas populações naturais das áreas de soltura. A introdução desses agentes pode causar surtos de doenças que podem afetara fauna silvestre, animais domésticos e seres humanos, representando risco à saúde pública (IUCN, 2013; ICMBio, 2024).
Animais que passaram longos períodos em cativeiro podem não apresentar as habilidades necessárias para sobreviver em ambiente natural, tais como forrageamento, fuga de predadores e interações sociais. Isso pode resultar em baixa sobrevivência após a soltura.
A realização de solturas adequadas enfrenta desafios que vão além dos aspectos técnicos. Entre eles, destaca-se o desconhecimento sobre os riscos, tanto por parte da sociedade quanto, em alguns casos, dos profissionais envolvidos na gestão da fauna.
Além disso, há limitações estruturais importantes, como a escassez de centros de triagem, a falta de recursos financeiros e a carência de profissionais especializados. Esse cenário contribui para que muitos animais sejam liberados sem a devida avaliação técnica.
Outro desafio relevante é a percepção social em relação à soltura. Muitas pessoas associam a liberdade do animal à sua liberação imediata na natureza, sem considerar os impactos dessa ação. Essa desconexão entre intenção e consequência reforça a necessidade de ampliar as ações de educação ambiental e a comunicação.
Para que a soltura contribua efetivamente para a conservação da biodiversidade, é fundamental que sejam observados alguns princípios básicos:
Essas diretrizes estão alinhadas a recomendações nacionais e internacionais para translocação de fauna, que destacam a importância do planejamento, da avaliação de riscos e do acompanhamento das ações (IUCN, 2013; ICMBio, 2024).
A soltura de animais silvestres é uma importante ferramenta de conservação, mas seu sucesso depende diretamente do planejamento e da adoção de critérios técnicos adequados. Quando realizada de forma inadequada, pode gerar impactos significativos e comprometer os esforços de conservação.
Dessa forma, promover práticas responsáveis de soltura, aliadas à educação ambiental, ao fortalecimento institucional e à produção de conhecimento científico, é fundamental para garantir a proteção da fauna silvestre e dos ecossistemas.
Referências
International Union for Conservation of Nature (IUCN). 2013. Guidelines for Reintroductions and Other Conservation Translocations. Version 1.0. Gland, Switzerland: IUCN Species Survival Commission.
Brasil. 1998. Lei nº 9.605, de 12 de fevereiro de 1998. Dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente. Diário Oficial da União, Brasília.
Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). 2021. Instrução Normativa nº 5, de 13 de maio de 2021. Dispõe sobre as diretrizes, prazos e os procedimentos para a operacionalização dos Centros de Triagem de Animais Silvestres (CETAS) e a destinação de animais silvestres. Brasília: IBAMA.
Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). 2024. Diretrizes de Translocações de Fauna para Conservação no Brasil. Brasília: ICMBio.
Pyšek, P.; Hulme, P. E.; Simberloff, D.; Bacher, S.; Blackburn, T. M.; Carlton, J. T.; Dawson, W.; Essl, F.; Foxcroft, L. C.; Genovesi, P.; Jeschke, J. M.; Kühn, I.; Liebhold, A. M.; Mandrak, N. E.; Meyerson, L. A.; Pauchard, A.; Pergl, J.; Roy, H. E.; Seebens, H.; van Kleunen, M.; Vilà, M.; Wingfield, M. J.; Richardson, D. M. 2020. Scientists’ warning on invasive alien species. Biological Reviews, 95(6): 1511–1534.
Simberloff, D.; Martin, J. L.; Genovesi, P.; Maris, V.; Wardle, D. A.; Aronson, J.; Courchamp, F.; Galil, B.; García-Berthou, E.; Pascal, M.; Pyšek, P.; Sousa, R.; Tabacchi, E.; Vilà, M. 2013. Impacts of biological invasions: what’s what and the way forward. Trends in Ecology & Evolution, 28(1): 58–66.
Rheindt, F. E.; Edwards, S. V. 2011. Genetic introgression: an integral but neglected component of speciation in birds. The Auk, 128(4): 620–632.
WWF. 2022. Living Planet Report 2022: Building a nature-positive society. Gland, Switzerland: World Wide Fund for Nature.
As atividades humanas têm promovido mudanças profundas nos ecossistemas em escala global, afetando a distribuição das espécies, a estrutura das comunidades biológicas e o funcionamento dos ecossistemas. Entre os principais vetores dessas mudanças, estão as invasões biológicas, que têm sido amplamente reconhecidas como uma das principais causas de perda de biodiversidade no mundo (IPBES, 2023; Bellard et al., 2016).
Invasões biológicas podem ser entendidas como o processo pelo qual espécies são introduzidas fora de sua área de ocorrência natural, conseguem se estabelecer, se dispersar e passar a interagir com as comunidades locais. Essas introduções ocorrem principalmente por ação humana, de forma intencional ou acidental, e podem resultar em diferentes níveis de impacto sobre os ecossistemas (Blackburn et al., 2011; Pyšek et al., 2020).
Espécies exóticas — aquelas introduzidas fora de sua distribuição natural por ação humana — podem, em alguns casos, se estabelecer e se dispersar em novos ambientes (Pyšek et al., 2020). Quando passam a se expandir rapidamente e a causar impactos negativos à biodiversidade, aos serviços ecossistêmicos ou à saúde humana, são classificadas como espécies exóticas invasoras (Blackburn et al., 2011; Pyšek et al., 2020). Entre os principais impactos associados a essas espécies estão a competição por recursos, a predação, a transmissão de doenças, a alteração de interações ecológicas e a hibridização, podendo comprometer a dinâmica das populações e o funcionamento dos ecossistemas (Simberloff et al., 2013; Pyšek et al., 2020).
Esse processo tem sido intensificado por fatores como a globalização, o aumento do transporte de mercadorias, a maior mobilidade humana e as mudanças no uso do solo, que ampliam as oportunidades de introdução e estabelecimento dessas espécies (Pyšek et al., 2020).
As invasões biológicas representam uma ameaça particularmente relevante em regiões tropicais, como a Mata Atlântica, que combinam alta biodiversidade com elevados níveis de degradação ambiental. Nesses contextos, a introdução de espécies exóticas pode agravar pressões já existentes, comprometendo ainda mais a persistência de espécies nativas, especialmente aquelas com distribuição restrita ou populações reduzidas (IPBES, 2023: Bergallo et al., 2000). Além disso, ambientes fragmentados e próximos a áreas urbanas, por exemplo, tendem a ser mais suscetíveis ao estabelecimento dessas espécies, o que favorece processos de invasão (Simberloff et al., 2013).
Diante desse cenário, compreender os processos de introdução, estabelecimento e disseminação de espécies exóticas é fundamental para o desenvolvimento de estratégias eficazes de prevenção, manejo e conservação, especialmente em biomas como a Mata Atlântica.
A compreensão dos conceitos relacionados às espécies exóticas e invasoras é essencial para evitar interpretações equivocadas e orientar ações de manejo e conservação. Esses termos possuem definições consolidadas na literatura científica e em diretrizes internacionais, como as propostas pela International Union for Conservation of Nature (Blackburn et al., 2011; Pyšek et al., 2020).
Uma espécie nativa é aquela que ocorre naturalmente em uma determinada região, tendo se estabelecido ali por processos ecológicos e evolutivos, sem interferência humana direta. Essas espécies fazem parte das comunidades locais e desempenham funções ecológicas importantes (Pyšek et al., 2020; IPBES, 2023); esse conceito é também adotado por órgãos nacionais, como o ICMBio, no contexto do manejo e da conservação da fauna silvestre.
Uma espécie exótica (ou não nativa) é aquela introduzida fora de sua área de distribuição natural, seja de forma intencional ou acidental, por ação humana (Pyšek et al., 2020). Essa introdução pode ocorrer entre países, biomas e até mesmo entre diferentes regiões em um mesmo país.
É importante destacar que nem toda espécie exótica se torna invasora. Muitas espécies introduzidas não conseguem sobreviver ou se reproduzir no novo ambiente, enquanto outras podem se estabelecer sem causar impactos significativos.Uma espécie exótica invasora é aquela que, após sua introdução, consegue se estabelecer, se dispersar e causar impactos negativos sobre a biodiversidade, os serviços ecossistêmicos, a economia ou a saúde humana (Blackburn et al., 2011; IPBES, 2023). Essas espécies podem alterar a estrutura das comunidades biológicas, competir com espécies nativas, predar organismos locais ou introduzir doenças.
Em alguns casos, uma espécie pode ser considerada exótica em escala regional, mesmo sendo nativa do país. Isso ocorre quando indivíduos são deslocados para áreas fora de sua distribuição natural no território nacional, o que pode gerar impactos semelhantes aos de introduções internacionais, incluindo competição, hibridização e transmissão de patógenos. Na Mata Atlântica, esse tipo de situação pode ser ilustrado pela presença de espécies exóticas já estabelecidas no bioma, como o pardal e o bico-de-lacre, que foram introduzidos e hoje ocorrem amplamente em ambientes urbanos e modificados, interagindo com espécies nativas. Esses casos exemplificam como a introdução de organismos fora de sua área de ocorrência natural pode resultar em alterações nas comunidades locais (Sick, 1997; Simberloff et al., 2013).
Dessa forma, distinguir corretamente entre espécies nativas, exóticas e exóticas invasoras é fundamental para a formulação de políticas públicas, ações de manejo e estratégias de conservação, especialmente em regiões biodiversas e ameaçadas como a Mata Atlântica.
O aumento da globalização, da mobilidade humana e das transformações no uso do solo tem intensificado essas vias de introdução, ampliando a frequência e a escala das invasões biológicas (IPBES, 2023). Como consequência, ambientes mais alterados, fragmentados ou próximos a áreas urbanas tendem a ser mais suscetíveis ao estabelecimento dessas espécies.
A introdução de espécies exóticas em novos ambientes ocorre principalmente por meio de atividades humanas, que atuam como vetores diretos ou indiretos desse processo. De forma geral, essas introduções podem ser classificadas em intencionais e acidentais, ambas amplamente documentadas na literatura científica (Pyšek et al., 2020; IPBES, 2023).
As introduções intencionais ocorrem quando espécies são deliberadamente transportadas para fora de sua área de distribuição natural. Isso pode acontecer por diferentes motivos, como o uso no comércio de animais de estimação, em atividades de criação e ornamentação, no controle biológico ou até em tentativas de enriquecimento da fauna local (Pyšek et al., 2020). No caso das aves, o tráfico de fauna silvestre e a manutenção de indivíduos em cativeiro são vias importantes, especialmente quando esses animais são posteriormente liberados na natureza sem critérios técnicos adequados, evidenciando a inter-relação entre diferentes pressões antrópicas sobre a biodiversidade.
Já as introduções acidentais ocorrem sem intenção direta e, em geral, estão associadas ao transporte de pessoas e mercadorias. Espécies podem ser transportadas inadvertidamente em cargas, veículos, embarcações ou aeronaves, ultrapassando barreiras geográficas que naturalmente limitariam sua dispersão (Pyšek et al., 2020). Embora esse tipo de introdução seja mais comum em invertebrados e plantas, também pode ocorrer em vertebrados, especialmente em situações de transporte irregular ou de fuga de cativeiro.
Além dessas vias, a soltura inadequada de animais silvestres é um vetor relevante e muitas vezes negligenciado (ver nossa seção de soltura inadequada de animais silvestres). Animais mantidos sob cuidados humanos — provenientes de tráfico, resgates ou criação doméstica —, quando liberados sem avaliação técnica, podem estabelecer populações em locais onde não ocorriam previamente ou introduzir indivíduos de diferentes origens populacionais, gerando impactos ecológicos, genéticos e sanitários. Mais uma vez, trazemos a atenção à relação entre as causas e as ameaças, como se somam e se interligam.
Nem todas as espécies exóticas introduzidas em novos ambientes conseguem se estabelecer ou chegam a causar impactos perceptíveis. Para que uma espécie se torne uma espécie exótica invasora, é necessário que apresente um conjunto de características biológicas e ecológicas que favoreçam sua sobrevivência, reprodução e dispersão no novo ambiente (Blackburn et al., 2011; Pyšek et al., 2020).
Entre essas características, uma das mais importantes é a alta capacidade de dispersão, que permite que os indivíduos se espalhem rapidamente e colonizem novas áreas. Com isso, aumentam as chances de encontrar ambientes adequados e de expandir sua distribuição. A alta taxa reprodutiva também contribui para o sucesso das invasões. Espécies que produzem muitos descendentes ou se reproduzem rapidamente tendem a estabelecer populações com mais facilidade e crescer em número em um curto período de tempo. Outro fator relevante é a plasticidade ecológica, ou seja, a capacidade de tolerar diferentes condições ambientais e de explorar vários tipos de recursos. Espécies com maior flexibilidade no comportamento e na alimentação conseguem se adaptar melhor a ambientes alterados ou distintos da sua área de origem (Pyšek et al., 2020; Simberloff et al., 2013).
A ausência de inimigos naturais, como predadores, parasitas ou competidores especializados, também favorece o estabelecimento dessas espécies. Sem mecanismos de controle, essas populações podem crescer de forma desregulada, aumentando seu impacto sobre as espécies nativas (Pyšek et al., 2020).
Além disso, muitas espécies invasoras apresentam vantagens competitivas em relação às espécies nativas, como maior agressividade ou maior eficiência na exploração de recursos. Em alguns casos, também mostram maior tolerância a ambientes perturbados, o que favorece sua ocorrência em áreas urbanizadas ou degradadas (Pyšek et al., 2020; Simberloff et al., 2013).
Vale destacar, no entanto, que o processo de invasão não depende apenas das características da espécie. As condições do ambiente receptor também são determinantes, incluindo o grau de distúrbio ambiental, a disponibilidade de recursos e a presença de nichos. Assim, a invasão biológica resulta da interação entre as características da espécie introduzida e a vulnerabilidade do ecossistema invadido (Pyšek et al., 2020; Blackburn et al., 2011).
As espécies exóticas invasoras podem causar uma ampla gama de impactos negativos, afetando não apenas a biodiversidade, mas também o funcionamento dos ecossistemas, a economia e a saúde humana. Esses impactos são amplamente reconhecidos como uma das principais causas de perda de biodiversidade em escala global (IPBES, 2023; Pyšek et al., 2020).
Há também impactos genéticos, principalmente quando ocorre hibridização entre espécies invasoras e nativas. Esse processo pode levar à perda de identidade genética de populações locais e à redução da variabilidade genética, contribuindo para processos de homogeneização biótica, nos quais as comunidades biológicas se tornam progressivamente mais semelhantes entre si (Blackburn et al., 2011; Pyšek et al., 2020).
Do ponto de vista sanitário, espécies invasoras podem atuar como vetores ou reservatórios de patógenos, promovendo a introdução e a disseminação de doenças em populações de fauna silvestre, de animais domésticos e de seres humanos. Esse risco torna-se ainda mais relevante em contextos de contato entre populações previamente isoladas ou em situações de soltura inadequada (IPBES, 2023).
Há ainda impactos socioeconômicos, que incluem prejuízos à agricultura, à pesca, à infraestrutura e à saúde pública, além dos custos associados ao controle e ao manejo dessas espécies. Em muitos casos, esses impactos afetam diretamente as comunidades locais e seus meios de subsistência (IPBES, 2023; Pyšek et al., 2020).
Em regiões altamente biodiversas e já pressionadas, como a Mata Atlântica, esses efeitos tendem a ser ainda mais intensos. A combinação entre alta diversidade de espécies, fragmentação de habitats e pressão antrópica aumenta a vulnerabilidade do bioma às invasões, potencializando os impactos dessas invasões sobre a fauna nativa, incluindo as aves.
De forma geral, os impactos das espécies exóticas invasoras são múltiplos e interconectados, atuando em diferentes níveis da organização biológica. Isso reforça a importância de estratégias integradas de prevenção, monitoramento e controle.
A Mata Atlântica é um dos biomas mais biodiversos do mundo, abrigando um elevado número de espécies, inclusive de espécies endêmicas (exclusivas a determinado ambiente). Ao mesmo tempo, é também um dos biomas mais ameaçados, marcado por um longo histórico de desmatamento, fragmentação de habitat e intensa pressão antrópica (Ribeiro et al., 2009). Esse cenário torna a região especialmente vulnerável ao estabelecimento e à expansão de espécies exóticas invasoras.
Em paisagens altamente fragmentadas, como as da Mata Atlântica, os remanescentes florestais tendem a ser menores, mais isolados e mais expostos a influências externas. Essas condições favorecem a entrada e o estabelecimento de espécies exóticas, especialmente em áreas próximas a centros urbanos, zonas rurais e bordas de fragmentos. Ambientes alterados ou degradados, em geral, apresentam menor resistência ecológica, o que facilita processos de invasão (Simberloff et al., 2013).
No caso das aves, esses processos podem ter consequências particularmente relevantes. Espécies exóticas invasoras podem competir por recursos, ocupar locais de nidificação, predar ovos e filhotes ou ainda atuar como reservatórios de patógenos, afetando diretamente as populações nativas. Exemplos incluem o pardal, amplamente associado a ambientes urbanos e que pode competir por locais de nidificação com espécies nativas, e o bico-de-lacre, que forma populações estabelecidas e pode interferir na dinâmica de comunidades locais. Esses impactos tendem a ser mais severos para espécies já ameaçadas ou com populações reduzidas, situação comum na Mata Atlântica (Clavero & García-Berthou, 2005; Bellard et al., 2016).
O controle e, principalmente, a prevenção da introdução de espécies exóticas invasoras são fundamentais para a conservação da biodiversidade no bioma. Estratégias que considerem as particularidades da Mata Atlântica — como o alto grau de fragmentação, a proximidade com áreas urbanas e a intensa interação entre humanos e fauna — são essenciais para reduzir os riscos associados às invasões biológicas e seus impactos sobre as aves.
As invasões biológicas estão diretamente relacionadas às atividades humanas, que atuam tanto na introdução quanto na dispersão de espécies exóticas. A intensificação de processos como a globalização, a expansão urbana e as mudanças no uso do solo têm ampliado as oportunidades para o transporte e estabelecimento dessas espécies em novos ambientes (IPBES, 2023; Pyšek et al., 2020).
No contexto da fauna silvestre, as principais ações humanas associadas a esse processo incluem:
| Ação humana | Descrição | Consequências ecológicas |
| Tráfico de animais silvestres | Deslocamento de indivíduos para fora de sua área de ocorrência natural, geralmente sem controle sanitário ou ecológico. | Introdução de espécies em novas áreas, disseminação de patógenos e pressão sobre populações nativas. |
| Manutenção em cativeiro | Criação ou posse de animais como pets ou em criadouros. | Fugas ou liberações intencionais que favorecem o estabelecimento de espécies fora de suas áreas naturais. |
| Soltura inadequada | Liberação de animais sem avaliação técnica, muitas vezes motivada por boas intenções. | Introdução de populações não nativas, mistura genética e transmissão de doenças. |
| Modificação de habitats | Alterações como a urbanização, a agricultura e a fragmentação ambiental. | Aumento da suscetibilidade à invasão devido à maior disponibilidade de recursos e a redução de predadores. |
Bellard, C., Cassey, P., & Blackburn, T. M. (2016). Alien species as a driver of recent extinctions. Biology letters, 12(2).
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A caça e o tráfico de animais silvestres estão entre as principais pressões antrópicas que afetam a biodiversidade em escala global, contribuindo para a redução de populações naturais, extinções locais e alterações na estrutura das comunidades ecológicas (Wyatt, 2013). Essas atividades são particularmente relevantes em regiões tropicais, onde ocorre elevada biodiversidade e também diferentes formas de uso e exploração da fauna.
No caso das aves, esses impactos são ainda mais evidentes, uma vez que muitas espécies são alvo frequente tanto da captura para o comércio ilegal quanto da caça, seja para consumo, uso cultural ou recreativo. O tráfico de fauna silvestre constitui uma atividade ilegal de grande escala, envolvendo uma cadeia complexa que vai desde a captura de indivíduos na natureza até sua comercialização em mercados nacionais e internacionais (Wyatt, 2013; OAMa, em preparação).
No Brasil, especialmente na Mata Atlântica, esses processos são intensificados pela combinação de alta biodiversidade, histórico de degradação ambiental e proximidade com grandes centros urbanos, fatores que favorecem tanto a captura quanto a demanda por animais silvestres (OAMa, em preparação). Nesse contexto, compreender as dinâmicas da caça e do tráfico de aves é fundamental para subsidiar estratégias de conservação, fiscalização e engajamento social.
O tráfico de animais silvestres é reconhecido como uma das maiores atividades ilícitas do mundo, movimentando bilhões de dólares anualmente e afetando milhares de espécies em diferentes regiões (Karesh et al., 2005; RENCTAS, 2001). Essa atividade envolve uma rede complexa que conecta áreas de origem, geralmente situadas em países com alta biodiversidade, a mercados consumidores nacionais e internacionais.
As aves estão entre os grupos mais impactados globalmente pelo tráfico, sendo frequentemente capturadas para o comércio de animais de estimação, para colecionismo ou para fins culturais. Em muitos casos, a demanda por espécies raras ou com características específicas impulsiona a retirada contínua de indivíduos da natureza, contribuindo para o declínio populacional e aumentando o risco de extinção de espécies nativas (Karesh et al., 2005; OAMa, em preparação).
Além dos impactos diretos sobre as populações naturais, o tráfico internacional de fauna também está associado à disseminação de doenças e ao risco de introdução de patógenos em novas regiões, o que amplia seus efeitos para além da conservação da biodiversidade, alcançando também a saúde pública (Karesh et al., 2005).
A compreensão das diferenças entre a caça e o tráfico de animais silvestres é importante para interpretar melhor os impactos dessas atividades e orientar ações de manejo e conservação.
A caça pode ser entendida como a captura ou o abate de animais silvestres, podendo ocorrer por diferentes motivações, como subsistência, uso cultural, controle populacional ou exploração comercial. Embora existam situações em que a caça possa ser regulamentada, no Brasil, a maior parte dessa atividade é ilegal, especialmente quando envolve espécies nativas sem autorização dos órgãos competentes (Brasil, 1998 – Lei nº 9.605/1998).
Já o tráfico de animais silvestres envolve a captura, o transporte e a comercialização ilegaisl de indivíduos da fauna, formando uma cadeia que conecta áreas de origem, intermediários e mercados consumidores. Essa atividade é considerada uma das maiores formas de crime ambiental no mundo e é impulsionada principalmente pela demanda por animais de estimação, por produtos derivados ou por usos culturais (Wyatt, 2013; OAMa, em preparação).
Apesar de serem diferentes, caça e tráfico muitas vezes estão conectados. Animais capturados podem ser destinados ao comércio ilegal, e indivíduos retirados da natureza para o tráfico também podem vir de contextos de caça. Em ambos os casos, ocorre a retirada de indivíduos de populações naturais, o que pode acarretar impactos importantes na biodiversidade.
De forma geral, a caça está mais associada à retirada direta de indivíduos, enquanto o tráfico envolve uma cadeia mais ampla, incluindo a captura, o transporte e a comercialização. Distinguir essas práticas ajuda a entender melhor suas dinâmicas e impactos, especialmente em regiões como a Mata Atlântica, onde ambas ocorrem com frequência sobre as mesmas espécies.
A caça e o tráfico de animais silvestres geram uma série de impactos que vão além da retirada de indivíduos da natureza, afetando diferentes níveis de organização biológica. Do ponto de vista ecológico, a remoção de indivíduos pode levar à redução populacional e, em casos mais intensos, à extinção local de espécies. Além disso, a retirada seletiva de determinados indivíduos, como os mais vistosos ou com características valorizadas, pode alterar a estrutura das populações e as interações ecológicas, afetando processos como a dispersão de sementes, a polinização e o controle de pragas (Simberloff et al., 2013; OAMa, em preparação). Em alguns casos, esses efeitos se propagam em cascata, comprometendo o funcionamento dos ecossistemas.
Os impactos genéticos também são relevantes. A redução no tamanho das populações pode levar à perda de variabilidade genética, aumentando a vulnerabilidade das espécies a doenças, mudanças ambientais e eventos extremos. Além disso, a remoção ou o deslocamento de indivíduos pode resultar em alterações na estrutura genética das populações, incluindo processos de hibridização quando há contato entre populações previamente isoladas (Frankham et al., 2002; OAMa, em preparação).
Do ponto de vista sanitário, o tráfico de fauna representa um risco importante para a disseminação de patógenos. Animais capturados e transportados em condições inadequadas podem atuar como vetores de doenças, tanto para outras espécies silvestres quanto para animais domésticos e seres humanos. A introdução de patógenos em novas áreas pode gerar surtos e desequilíbrios ecológicos, além de representar riscos à saúde pública, especialmente no contexto de zoonoses (Karesh et al., 2005; OAMa, em preparação).
De forma geral, esses impactos não ocorrem isoladamente, mas interagem entre si, potencializando os efeitos negativos da caça e do tráfico sobre a diversidade.
Na Mata Atlântica, a caça e o tráfico não atuam de forma isolada, mas se somam a outras pressões já existentes, agravando o risco de perda de biodiversidade e dificultando os esforços de conservação (Ribeiro et al., 2009; OAMa, em preparação).. Nesse contexto, a exploração direta da fauna se soma a outras ameaças, como a perda e a fragmentação de habitat, intensificando os efeitos sobre as populações naturais (Ribeiro et al., 2009; OAMa, em preparação).
As aves estão entre os grupos mais afetados pela caça e pelo tráfico. Espécies com canto valorizado (melodioso), plumagem chamativa ou comportamento mais dócil são frequentemente alvo do tráfico, enquanto outras sofrem pressão de caça, especialmente em áreas rurais. Estima-se que milhões de animais silvestres sejam retirados da natureza anualmente no Brasil, com altas taxas de mortalidade ao longo da cadeia do tráfico, o que evidencia a magnitude desse problema (RENCTAS, 2001; OAMa, em preparação).
Além da retirada direta de indivíduos da natureza, essas atividades contribuem para a redução das populações e podem levar à extinção local de espécies, especialmente quando afetam populações já pequenas ou isoladas. No caso das aves, isso pode comprometer não apenas a sobrevivência das espécies, mas também funções ecológicas importantes, como a polinização, a dispersão de sementes e o controle de pragas (por exemplo insetos) (Simberloff et al., 2013; OAMa, em preparação).
O mutum-do-sudeste é uma espécie endêmica da Mata Atlântica brasileira, ocorrendo exclusivamente no país, e neste bioma possui uma função importante para o ecossistema, ao dispersar sementes e regular a densidade populacional de plantas. Antigamente, a ave ocorria do sul da Bahia até o Rio de Janeiro, adentrando o leste de Minas Gerais. Atualmente está restrita a fragmentos florestais isolados na Bahia e no Espírito Santo, principalmente em áreas de reservas naturais (Alves, 2017; Silveira, 2023).
A espécie é considerada globalmente Em Perigo pela IUCN. Essa classificação está associada à sua distribuição altamente fragmentada e ao baixo tamanho populacional, com menos de 2500 indivíduos na natureza; estima-se que a população do mutum-do-sudeste na natureza seja de até 500 indivíduos adultos que estão sob contínua ameaça (IBAMA, 2004; Silveira, 2023; INMA, 2022).
O mutum-do-sudeste ocorria em florestas de baixadas e de tabuleiro, que foram severamente degradadas principalmente durante o grande ciclo do desmatamento, iniciado na década de 1960. A abertura da fronteira agropecuária, a expansão das malhas ferroviárias e rodoviárias e a atividade extrativista reduziram em 93% a área de ocorrência do mutum-do-sudeste e, atualmente, apesar da espécie ocorrer principalmente em Unidades de Conservação, a perda de habitat ainda é uma realidade devido ao desmatamento ilegal e aos incêndios florestais. Além da perda de recursos, a espécie também sofre com o aumento dos mesopredadores favorecidos pela fragmentação, o que resulta em uma maior predação dos ninhos (IBAMA, 2004; Silveira, 2023).
Crax blumenbachii é protegida pela legislação brasileira desde 1967 e também pela Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (CITES), da qual o país é signatário desde 1975. Entretanto, a caça continua sendo uma ameaça à espécie.
O mutum-do-sudeste é, assim como os outros mutuns, bastante vulnerável e facilmente extinto localmente pela caça, seja esta de lazer ou de subsistência — mesmo quando praticada em baixa intensidade. Essa atividade antrópica provavelmente foi a causa do declínio populacional do mutum-do-sudeste, inclusive em áreas protegidas, como no Parque Nacional do Monte Pascoal, na Bahia. A pressão de caça sobre o mutum-do-sudeste é antiga e crônica; há registros de 1820 que indicam o uso de penas do mutum por indígenas Puri e Camacãs, além do conhecimento sobre a captura da espécie, com o uso de armadilhas tradicionais. O canto dos machos indica aos caçadores sua localização, e a ave, ao se sentir ameaçada, empoleira-se para observar o perigo antes de voar para longe, comportamento que torna os mutuns mais vulneráveis à captura com armas de fogo, por exemplo (IBAMA, 2004). Outra importante ameaça à espécie é a dos animais domésticos, que, soltos em regiões de mata, acabam por predar a ave (Bernardo, 2010).
Proteger o mutum-do-sudeste é também proteger a biodiversidade da Mata Atlântica, uma vez que a fragmentação e a caça afetam esta e inúmeras outras espécies, algumas endêmicas apenas das florestas sul-baianas, conhecidas como “Hiléia Baiana”.
Para isso, além do enfrentamento dessas ameaças, há iniciativas de reintrodução do mutum-do-sudeste em quatro localidades distintas, em áreas de distribuição histórica da espécie, para restabelecer, na natureza, as populações e o equilíbrio ecossistêmico. Em 1991, a Fundação Crax em parceria com órgãos do governo e da Cenibra, iniciou a implementação do projeto de reintrodução, o Projeto Mutum. Até 2019, a iniciativa reintroduziu 219 indivíduos (118 machos e 101 fêmeas) na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Fazenda Macedônia, em Minas Gerais; desse projeto já eclodiram 181 filhotes na natureza (Alvarez, 2010; Carvalho, 2025).
De 2004 a 2014, o ICMBio em conjunto com diversos parceiros, realizou o Plano de Ação Nacional para Conservação do mutum-do-sudeste, apresentando informações sobre a biologia da espécie e propondo uma série de medidas a serem implementadas, visando à conservação da espécie e apoiando as iniciativas de pesquisa e o monitoramento do mutum.
O bicudo-verdadeiro é uma ave do gênero Sporophila de canto melódico e complexo, com variações de notas e frequências (Orzio, 2017). Distribuí-se ao longo da América do Sul – nas Guianas, Venezuela, Colômbia, Bolívia e Brasil – habitando áreas alagadas, como brejos, banhados e veredas (Marini, 2023). A espécie possui registro histórico em 14 estados brasileiros e no Distrito Federal*, entretanto, em decorrência da captura para abastecer o comércio ilegal e da perda de habitat, o bicudo é atualmente encontrado apenas em duas localidades disjuntas, entre os estados do Mato Grosso, Rondônia e Goiás (Marini, 2023; Machado, 2020).
O bicudo-verdadeiro é uma espécie ameaçada, classificada como Em Perigo pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e como Criticamente em Perigo pela Lista Brasileira de Espécies Ameaçadas. Estima-se que existam de 1000 a cerca de 2500 indivíduos maduros na natureza; esse número é drasticamente reduzido quando se considera apenas o território brasileiro, que abriga uma população de até 250 bicudos-verdadeiros, com subpopulações de até 50 indivíduos (Marini, 2023).
O tráfico desempenha um papel central na redução da espécie na natureza, o que é evidenciado pela quantidade de bicudos encontrados em criadouros legais, que chega a mais de 180 mil – número que aumenta com a criação ilegal e, por isso, é subamostrado e é encontrado principalmente na região Sudeste (Machado, 2020; Marini, 2023). O bicudo-verdadeiro é comercializado para além da sua área de distribuição original (mais de 200 km) e é utilizado em torneios de canto, o que aumenta seu valor no mercado e evidencia a atratividade da espécie para o comércio (Ferrari, 2017; Stehling, 2019). A perda de habitat, apesar de impactar a distribuição da espécie, aparece como pressão secundária, uma vez que a espécie ocorre em áreas abertas (Marini, 2023).
*Os registros históricos nos estados do Acre e do Piauí são duvidosos. Eram registros únicos ou de indivíduos engaiolados.
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As pressões de ameaça às aves (e a toda a biodiversidade) são interligadas, formando uma rede complexa de fatores interativos. Devido a estas conexões e à contextualização temporal e espacial, é difícil analisar as ameaças isoladamente e elencar qual a principal ou principais causas de perda de biodiversidade. No entanto, a perda de habitat é reconhecida como a principal causa da redução e do desaparecimento de espécies em diferentes ecossistemas (Fahrig, 2003; IPBES, 2019). A perda de habitat ocorre quando ambientes naturais são destruídos, degradados ou transformados, deixando de oferecer as condições necessárias à sobrevivência e, consequentemente, à manutenção das espécies que vivem.
Para as espécies silvestres, o habitat não é apenas um local físico, mas também o conjunto de condições que possibilita sua existência, como disponibilidade de alimento, abrigo e locais para reprodução (Hall et al., 1997). Quando esse ambiente é alterado, as espécies podem enfrentar dificuldades para se alimentar, reproduzir e até mesmo manter populações viáveis no prazo (Henle et al., 2004).
Apesar de ser um processo amplamente reconhecido na ciência, a perda de habitat ainda é frequentemente percebida como apenas a “retirada de árvores” ou a diminuição de áreas verdes. No entanto, seus efeitos são mais complexos e podem incluir mudanças no comportamento, na saúde e no desenvolvimento das espécies, que muitas vezes não são imediatamente visíveis ao nosso olhar (Didham et al., 2007).
A extinção local nem sempre é a primeira resposta: antes disso, pode ocorrer uma homogeneização das comunidades animais, em que espécies tolerantes a ambientes alterados persistem enquanto outras desaparecem, um processo já documentado para diversos vertebrados e invertebrados na Mata Atlântica (Maurenza et al., 2024). Em alguns casos, o número de funções ecológicas aparentemente se mantém, mas passa a ser desempenhado por espécies diferentes, de modo que o ecossistema tem seu funcionamento alterado sem que isso fique evidente apenas pelo número de espécies ou pela diversidade funcional (Coster et al., 2015).
A perda de habitat na Mata Atlântica é extremamente preocupante, pois, neste bioma existem muitas espécies que dependem de ambientes florestais bem estruturados e que apresentam baixa tolerância a alterações na paisagem (Powell et al., 2015). A ljacutinga, Aburria jacutinga: uma ave frugívora de grande porte que se alimenta no alto das copas de florestas primárias e não costuma ser encontrada em áreas alteradas. Mesmo quando ainda presentes em áreas fragmentadas, essa e outras espécies podem já estar sob condições ambientais desfavoráveis, o que compromete sua permanência no longo prazo.
A Mata Atlântica foi explorada intensamente desde o início da colonização portuguesa e hoje é o bioma com menor cobertura vegetal nativa do Brasil. Hoje, resta menos de um terço de sua cobertura vegetal nativa, fragmentos de uma matriz que já foi bem conectada no passado. Mais de 67% deste bioma é destinado a algum tipo de uso antrópico (Mapbiomas, 2025). Como resultado, o que antes era uma floresta contínua hoje se apresenta, em grande parte, como um mosaico de fragmentos isolados de mata, inseridos em uma paisagem intensamente modificada (Ribeiro et al., 2009).
O bioma concentra mais de 33% da produção agrícola do Brasil (Mapbiomas, 2025) e produz a maior parte de alimentos de consumo direto da população brasileira. Além disso, é responsável por 42% da produção de energia e 53% da produção de alimentos de origem animal no país (Pinto et al., 2022). Porém, ainda há muito a ser trabalhado e aprimorado para que se mantenha um sistema de produção mais sustentável, que permita a manutenção de florestas e da biodiversidade, sem prejuízo da segurança e da soberania alimentar da população brasileira.
No presente material, temos como objetivo detalhar e aprofundar o que é a perda de habitat, como ela ocorre e quais são seus impactos. O material serve como base de consulta para públicos diversos que buscam ter um panorama geral do tema, com foco nos efeitos da perda de habitat para as aves da Mata Atlântica.
A perda de habitat pode ser entendida como qualquer processo que reduza a quantidade, a qualidade ou a capacidade de um ambiente natural de sustentar espécies e processos ecológicos (Fahrig, 2003). A perda pode ocorrer de forma direta, como no desmatamento e na remoção da vegetação nativa, ou de forma indireta, quando o ambiente é alterado a ponto de se tornar inadequado para determinadas espécies, como, por exemplo, a substituição de florestas por plantações não-nativas.
Nem sempre a perda de habitat implica a eliminação completa de uma área natural. Muitas vezes, o ambiente permanece fisicamente presente, mas perde suas características essenciais. Por exemplo, uma floresta pode continuar existindo, mas com alterações na estrutura da vegetação, redução de recursos alimentares ou aumento de perturbações externas, tornando-se menos adequada para a fauna que dela dependia (Didham et al., 2012).
Outro aspecto importante é a fragmentação, que ocorre quando grandes áreas contínuas de habitat são divididas em partes menores e isoladas (Fahrig, 2003). Esses fragmentos passam a funcionar como “ilhas” em meio a uma matriz alterada, como áreas urbanas ou agrícolas. Isso dificulta o deslocamento das espécies, reduz a troca genética entre populações e aumenta a vulnerabilidade a extinções locais (Haddad et al., 2015).
Assim, a perda de habitat não deve ser vista apenas como uma questão de quantidade de áreas, mas também de qualidade e conectividade (Fahrig, 2013). Mesmo pequenas alterações podem ter efeitos significativos sobre as espécies, especialmente as mais especializadas ou sensíveis às mudanças ambientais (Henle et al., 2004).
A jacutinga, Aburria jacutinga, é um exemplo emblemático de como a perda de habitat afeta as aves da Mata Atlântica. Essa espécie é uma ave frugívora de grande porte, que depende de florestas bem conservadas para sobreviver, especialmente de áreas com árvores de grande porte que fornecem alimento ao longo do ano (BirdLife International, 2023; Galetti et al., 2013).
Com a redução e fragmentação das florestas, a jacutinga perdeu grande parte de seu habitat original. Atualmente, suas populações estão restritas a poucos remanescentes florestais mais extensos e conectados, nos quais ainda é possível encontrar as condições necessárias à sua sobrevivência (BirdLife International, 2023).
Além da diminuição do espaço disponível, a fragmentação dificulta o deslocamento da espécie entre áreas florestais, o que limita o acesso a recursos e reduz as chances de reprodução (Haddad et al., 2015). Por ser uma ave de maior porte e com exigências ecológicas específicas, a jacutinga apresenta baixa tolerância a ambientes alterados, sendo raramente encontrada em áreas degradadas ou em fragmentos pequenos (Galetti et al., 2013).
A redução das populações de jacutinga também tem implicações para o próprio funcionamento da floresta. Como se alimenta de frutos e dispersa sementes, essa espécie desempenha um papel importante na regeneração de árvores nativas. Sua diminuição pode afetar processos ecológicos fundamentais, como a dispersão de sementes de espécies vegetais de grande porte (Galetti et al., 2013).
Atualmente, a jacutinga é considerada uma espécie ameaçada de extinção, tendo como uma de suas principais ameaças a perda de habitat decorrente da fragmentação florestal (BirdLife International, 2023). Esse caso ilustra como a transformação da paisagem pode impactar diretamente espécies mais sensíveis e evidencia a importância da conservação de áreas florestais contínuas, bem estruturadas e com bom funcionamento.
Outra ave que sofreu e sofre as consequências diretas da perda de habitat é o formigueiro-de-cabeça-negra, Formicivora erythronotos (Faria et al., 2026). A espécie, que foi considerada extinta por mais de um século antes de ser redescoberta em 1987, possui distribuição muito restrita e habita preferencialmente matas secundárias arbustivas ou
arbóreas nas áreas de baixada do Estado do Rio de Janeiro (Gonzaga, 2008). No entanto, as florestas de baixada estão entre os ecossistemas que mais sofrem com a pressão antrópica, o desmatamento e a fragmentação na Mata Atlântica, pois são de fácil acesso e apresentam potencial para a agricultura, o turismo e a construção civil. Assim, o formigueiro-de-cabeça-negra vem sofrendo forte pressão decorrente da perda de habitat principalmente em razão do crescimento urbano desordenado na pequena região onde ocorre, na região da Costa Verde, RJ (Gonzaga, 2008; Faria et al. 2026). A espécie é considerada Criticamente Em Perigo de Extinção no Brasil (BRASIL, 2022).
A harpia (Harpia harpyja) é uma grande e poderosa ave de rapina da região neotropical. Sua presença numa área florestal é um indicador do grau de integridade do ecossistema. A harpia é classificada como ‘Vulnerável’ na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) (Birdlife International 2021), mas é considerada localmente extinta em vários locais da Mata Atlântica brasileira (de Vargas González et al. 2006). As harpias são especialistas no habitat onde ocorrem e podem ter dificuldades em se adaptar rapidamente a condições e recursos em mudança. Além disso, estas aves precisam de uma grande área para se reproduzir e viver (de Vargas González; Vargas, 2011; Sutton et al., 2022), de forma que a perda de habitat impacta profundamente sua chance de sobrevivência (de Vargas González et al., 2006).
Os ecossistemas naturais prestam uma enorme diversidade de serviços gratuitos e insubstituíveis aos seres humanos. Estes serviços muitas vezes são invisibilizados pela economia convencional por conta da dificuldade de se atribuir um valor de mercado a eles. Mas o que seriam estes serviços ecossistêmicos?
A lei Nº 14.119, de 13 de janeiro de 2021, define como serviços ecossistêmicos:
“[Os] benefícios relevantes para a sociedade gerados pelos ecossistemas, em termos de manutenção, recuperação ou melhoria das condições ambientais, nas seguintes modalidades:
a) serviços de provisão: os que fornecem bens ou produtos ambientais utilizados pelo ser humano para consumo ou comercialização, tais como água, alimentos, madeira, fibras e extratos, entre outros;
b) serviços de suporte: os que mantêm a perenidade da vida na Terra, tais como a ciclagem de nutrientes, a decomposição de resíduos, a produção, a manutenção ou a renovação da fertilidade do solo, a polinização, a dispersão de sementes, o controle de populações de potenciais pragas e de vetores potenciais de doenças humanas, a proteção contra a radiação solar ultravioleta e a manutenção da biodiversidade e do patrimônio genético;
c) serviços de regulação: os que concorrem para a manutenção da estabilidade dos processos ecossistêmicos, tais como o sequestro de carbono, a purificação do ar, a moderação de eventos climáticos extremos, a manutenção do equilíbrio do ciclo hidrológico, a minimização de enchentes e secas e o controle dos processos críticos de erosão e de deslizamento de encostas;
d) serviços culturais: os que constituem benefícios não materiais providos pelos ecossistemas, por meio da recreação, do turismo, da identidade cultural, de experiências espirituais e estéticas e do desenvolvimento intelectual, entre outros.”
A perda de habitat, ao contrário do que muitos pensam, não afeta apenas os animais. Isso porque a perda de vegetação nativa implica perda de solo, de água, de alimentos que nos abastecem. Quando os habitats são destruídos, esses serviços entram em colapso, e quem paga a conta são as populações humanas, principalmente as em situação de vulnerabilidade.
Diante do cenário de perda e fragmentação de habitats na Mata Atlântica, a conservação das aves depende de ações integradas que atuem tanto na proteção dos remanescentes florestais quanto na recuperação de áreas degradadas. A manutenção e o fortalecimento de Unidades de Conservação (UC ‘s), reservas privadas e Áreas de Proteção Ambiental (APAs) são estratégias fundamentais para garantir a preservação de habitats essenciais e a sobrevivência de espécies mais sensíveis.
Além da proteção de áreas já existentes, a restauração ecológica tem um papel central e importante na reversão dos impactos da perda de habitat. A recuperação de áreas degradadas e a recomposição da vegetação nativa contribuem para o aumento da disponibilidade de habitat e podem favorecer o retorno de espécies que haviam desaparecido localmente (Brancalion et al., 2019).
Outro aspecto importante é a conectividade da paisagem. A criação e manutenção de corredores ecológicos permitem o deslocamento de indivíduos entre fragmentos florestais, facilitando o fluxo gênico e aumentando a viabilidade das populações no longo prazo (Haddad et al., 2015). Estratégias que promovem uma matriz mais permeável, como sistemas agroflorestais e práticas de uso do solo mais sustentáveis, também podem reduzir os efeitos negativos da fragmentação.
No contexto das aves da Mata Atlântica, essas ações são especialmente relevantes para espécies mais sensíveis à perda de habitat, que dependem de ambientes florestais contínuos, bem estruturados e com bom funcionamento. A conservação dessas espécies exige não apenas a proteção de áreas isoladas, mas também o planejamento da paisagem como um todo.
Por fim, políticas públicas, planejamento territorial e o engajamento da sociedade são elementos fundamentais para enfrentar a perda de habitat. A implementação de estratégias de conservação depende da articulação entre diferentes setores, incluindo governos, instituições de pesquisa, organizações da sociedade civil e comunidades locais.
Assim, enfrentar a perda de habitat não envolve uma única solução, mas um conjunto de ações complementares que visam manter, recuperar e restaurar ambientes naturais, garantindo condições para a conservação das aves e da biodiversidade da Mata Atlântica.
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